O Mito do Golem

O conflito entre o racionalismo e o misticismo é uma luta travada na mente do homem desde os primórdios da sua existência. É uma disputa entre a matéria e o espírito, que se traduz, no terreno da cultura, em uma porfia que reune, em campos opostos, a religião e a ciência. Mas não raras vezes, esse arquétipo, que se traduz na anseio da mente humana de saber a origem das coisas, acaba encontrando pontos de convergência interessantes, que dão geração a mitos e especulações de caráter bem interessantes. Um desses arquétipos é o famoso mito do Golém, trabalhado no livro acima mencionado, que fala de temas científicos, metaforiando-os com o mito do Golém.
O Golém, originalmente, é um mito criado pela tradição da Cabala, que trabalha com a idéia desenvolvida pela tradição judaica de que o homem é um ser feito pelo Criador a partir do barro do terra e animado pelo sopro divino. É esse o mito desenvolvido pelo cronista bíblico na sua narração da obra genética de Deus, ao criar o homem Adão.[1]Até aí impera o espírito místico e religioso do homem ao atribuir uma concepção mágica ao fenômeno humano. É o espírito relogioso que fala. Mas logo em seguida vem uma concessão ao espírito científico ao atribuir o nascimento da mulher a partir de uma operação cirúrgica (embora magicamente feita por Deus), na qual a doce companheira do homem é produzida a partir de uma costela sua. Aqui vemos Deus como um cientista trabalhando como um cientista em seu laboratório.
E o homem, moldado por Deus, herda, em seu bestunto, a qualidade de Criador. Ou pensa que herda. Pois ele que guarda em seu projeto inicial a informação de como procriar e, mais que isso, entender como isso pode ser feito, julga que também, como Deus, é capaz de criar seres vivos.
Essa idéia é uma obsessão que o acompanha desde que ele aprendeu a pensar. Está na origem de velhos mitos, como as próprias narrativas do Gênesis, que provavelmente são inspiradas em narrativas mais antigas ainda, pois já aparecem em ancestrais contos súmerios, e também nas modernas pesquisas da ciência da engenharia genética e da robótica. O homem quer porque quer fabricar cópias de si mesmo, não da forma natural, pelos processos pelos quais o seu Criador o dotou, mas pelo seu próprio poder de criar.
Esse é o tema central dessa lenda instigante e intrigante que é o mito do Golém. 

                                                               
O que é o Golém.

Golem  é um ser fabricado artificialmente através de um processo mágico. A origem desse mito está na tradição da Cabala, associada com outro mito desenvolvido pelos rabinos judeus, que é o Inéfavel Nome de Deus, ou seja, o Verdadeiro Nome de Deus, palavra mágica só transmitida a muitos poucos “escolhidos” na terra.
No folclore judaico o Golem (גולם) tornou-se um mito de alto valor simbólico, que designa a pessoa sem “espirito”. No hebraico moderno essa palavra designa inclusive a pessoa  desprovida de entendimento, ou seja, pessoa tola, imbecil, estúpida, sujeia a ser moldada e conduzida pelos outros.[2]
A tradição cabalística ensina que o universo foi criado a partir de três atributos de Deus:  Luz, que é sua energia manifestada em forma de eletricidade, magnetismo e calor, o Som, que é a Palavra Sagrada, o seu Nome Inefável, e o Número, que são as representações pictóricas das suas infinitas qualidades, manifestadas como forma e quantidade. Por isso o processo criativo, conforme a Bíblia o descreve na seguinte seqüência: a luz sendo tirada das trevas e transformada em formas, A Vóz de Deus (o Verbo) dando forma e vida à criação, a matéria e a vida se multiplicando no vazio cósmico.
Por fim, a manifestação da vida no universo, e dentro dela a criação do homem. E neste, mais uma vez a Voz de Deus (o sopro divino) agindo como elemento desencadeador do fenômeno. Nesse ato do Criador, em soprar no nariz do homem (segundo a tradução literal da Biblia) ou no seu ouvido, segundo a tradição cabalística, está a origem desses dois inquietantes mitos arcanos que tem ocupado os espíritos místicos desde épocas já perdidas nas brumas do tempo. Pois segundo se diz, o que foi soprado no ouvido do molde de barro ( Adão), foi um nome, ou seja, o Verdadeiro Nome de Deus.
Dizem os cultores desse mito que Deus tem cerca de dez bilhões de Nomes. Jeová é um deles, Adonai  é outro, da mesma forma que Alá , Brhaman, Zeus, Júpiter, Baal, Kemosh, Aton, etc. (nomes que os povos antigos davam às suas divindades) eram apenas nomes que cada língua encontrava para designar Deus. Isso porque o seu Verdadeiro Nome era uma palavra impronunciável em qualquer língua humana, já que a sua correta grafia e a sua pronuncia perfeita constituía uma “senha” que conferia ao seu conhecedor o poder do próprio Deus. Conhecer o nome dos deuses já era uma sabedoria perseguida pelos antigos egípcios como uma condição de poder e capacidade de conceder ao defunto a definitiva salvação da sua alma. Por isso, no hinário do famoso Livro dos Mortos, essa é uma das principais lições que o morto deve aprender antes de se apresentar no Tribunal de Osíris.
Voltando à tradição cabalística, os cultores da Cabala esotérica acreditavam que quem conseguisse descobrir qual o Verdadeiro Nome de Deus e soubesse pronunciá-lo corretamente, conseguiria reproduzir o ato divino de criação, e seria capaz de produzir um ser vivo, da mesma forma que Deus teria feito Adão. Diz ainda a tradição que como o Verdadeiro Nome de Deus não pode ser pronunciado por nenhum mortal, os rabinos a substituíam pela palavra Emeth (Verdade). Com essa palavra o Golém era animado.O molde de barro se tornava um ser vivo. Apagando-se a primeira letra da direita para a esquerda, o Golém era extinto.    
O processo é o mesmo descrito na Bíblia para fazer o homem. Da mesma forma que Adão, um Golem é criado com a lama da terra. Faz um molde de barro e recitam-se palavras mágicas para dar-lhe a vida. Pressupõe-se que essas palavras mágicas sejam os possíveis Nomes de Deus, culminando com o seu Verdadeiro Nome, o Nome Inefavel, conhecido somente de muitos poucos “escolhidos”. Porém, a tradição rabínica nunca afirmou que alguém, em tempo algum, tenha crido um ser perfeito, semelhante à Adão. Todos os Golens nunca passaram de seres imperfeitos, que não raras vezes se voltavam contra seus criadores e acabavam se transformando em monstros que geralmente precisavam ser destruídos, pois se tornavam perigosos para a própria humanidade. No verso 65 b do Sanhedrin, se descreve como o Rabino Raba criou um Golem a partir do conhecimento obtido na leitura do Sefer Yetzirah. Como não conseguia fazê-lo falar, enviou-o ao  Rabi Zeira, para que este o aperfeiçoasse. Não conseguindo que ele falasse, o Rabi Rav Zeira o extinguiu, dizendo:
"Vejo que você foi criado por um dos nossos colegas; volte ao pó"

Livros e filmes

                                     

A lenda do Golém é, como vimos, anterior à organização do judaísmo como religião. Remonta às antigas lendas sumérias e provavelmente deve ter servido para a narrativa bíblica do Gênesis. Ganhou, entretanto, foros de verdadeira tradição na Idade Média, quando até experimentos alquímicos foram feitos a partir dessa idéia. Não foram poucos os alqumistas que tentaram sinterizar, em seus laboratórios, o “homus alquimicus”, criatura viva que eles pensavam obter a partir do plasma sanguíneo ou do sêmem humano. Daí muitos contos e novelas terem sido escritos com base nesse mito e que serviram para inspirar novelas famosas, como o Frankenstein de Mary Shelley.    
A narrativa mais famosa envolvendo o mito do Golém refere-se  ao rabino Judah Levi, que durante o século XVI em Praga, teria um feito um Golem para defender o gueto dos judeus daquela cidade contra ataques anti-semitas. Isso mostra que o anti semitismo não é um privilégio dos nazistas, mas é fenômeno já bastante antigo na história das culturas européias. Em 1847 apareceu o primeiro trabalho literário baseado nesse mito, publicado uma coleção de contos judaicos intitulada Galerie der Sippurim, publicada por Wolf Pascheles, de Praga. Em 1909, um escritor judeu Yudl Rosenberg, publica um conto de larga repercussão sobre assunto, despertando de vez a curiosidade do mundo sobre esse mito. Em 1915 o escritor alemão Gustav Meyrink tranformou o mito do Golém numa novela de profunda significação psicológica onde ele vê o arquétipo do Golém como um símbolo perturbador do homem moderno, “moldado e informado” para ser o servo de uma sociedade conduzida por uns poucos “escolhidos”. Essa visão de Meyrink, que viria a ser profética, pois logo os nazistas iriam torná-la um fato, é hoje reconhecida como um dos grandes clássicos da literatura esotérica em todo o mundo.  Uma outra grande obra inspirada nesse mito foi escrita por Isaac Bashevis Singer, que com ela ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1969.
Além de inspirar o romance de Mary Shelley Frankenstein, e as inúmeras versões cinematográficas que ele ganhou, o mito do Golém foi tema de um dos mais instigantes clássicos do cinema mudo, o antológico "O Golem - Como veio ao mundo ", de 1920, do diretor Paul Wegenner. Mas o mito do Golém já foi explorado em várias outras versões cinemátográficas, onde a metáfora do inocente forte e bobalhão é utilizada por pessoas “importantes”, para a realização de seus designios. Dois desses filmes famosos são a saga de Edward Mãos de Tesoura e o bonito Muito Além do Jardim, com Petter Sellers.

A Ciência é um Golém?

Os autores Harry Collins e Trevor Pinch parecem pensar que sim.  Nessa visão, o Golém aparece despido das suas roupagens medievais, que são associadas a uma idéia diabólica de que o homem pode imitar Deus no processo de criação. Aqui, a idéia é metaforizar a ciência, no sentido de que ela se parece com um Golém. Possui uma força sobrenatural, mas é meio atoleimada, como o homúnculo criado pelos rabinos cabalistas. Ela não pode ser responsabilizada pelos seus maus resultados, pois ela não tem consciência. Os “sábios”, que a dirigem sim. Eles são os novos rabinos, detentores da Palavra Sagrada.
Embora o livro seja escrito numa linguagem científica , explorando conceitos e temas da ciência moderna, como teoria da relatividade, a energia solar, as forças cósmicas, cérebros de vermes e ratos, bacteriologia, fusão a frio e outros assuntos, ele se aproxima muito da literatura mista de ciência e esoterismo que fez a fama de Fritjof  Kapra, por exemplo.
No fundo, é uma leitura instigante que mostra bem o quanto a mente moderna pode coexistir com o mundo da matéria e do espírito sem extrair daí qualquer  conflito que ponham em risco, de um lado a sua fé, de outro a sua razão. É um livro bom de ler

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