Em todo o país, segundo o cronograma definido pelo governo, hoje foi um dia de oração e reflexão. Catedrais, igrejas de bairro, sinagogas, mesquitas e locais de culto religioso em geral prepararam algo diferente para a tradicional celebração de domingo, o primeiro desde a morte de Mandela, na quinta-feira.
O dia de oração para lembrar o líder nacional foi convocado pelo presidente Jacob Zuma. Templos de todo o país receberam milhares de pessoas, que prestaram homenagem. É o primeiro evento de uma semana de celebrações em diversas cidades do país, que serão encerradas com o enterro do ex-presidente na aldeia de Qunu, onde nasceu, no próximo domingo.
Na Regina Mundi, igreja católica no mais emblemático bairro de Joanesburgo, Mandela é lembrado em um mural na entrada, ao lado de vidraças com buracos de bala com quase 40 anos de idade, ainda preservados. Para lá correram jovens perseguidos pela polícia na revolta do Soweto, de 1976, um dos momentos marcantes da luta contra a segregação racial.
O local ficou lotado para a missa das 7h (3h em Brasília). Uma das fiéis, Gladys Simelane, disse que foi ao templo para rezar pela memória de Mandela, mas também pelo futuro sul-africano. “As pessoas estão orando para que não haja mudança, para que todos continuemos juntos”.
Durante a espera pelas sessões de oração, fiéis rezavam, mas a maioria mostrava um semblante de alegria. Olga Mbeke, 60, lembrou que rezava no local pelos combatentes do apartheid. “Mandela lutou muito por nós, agora deve encontrar o descanso. Oramos pela paz de sua alma”.
“Agradecemos a Deus pelo farol de reconciliação que Madiba foi”, disse o padre Sebastian Rossouw, citando o apelido do líder. “Deus nos enviou Isaías, depois João Batista, depois Mandela. Ele nos mostrou que a luz pode brilhar na escuridão”, afirmou.
O pároco lembrou a “humildade e capacidade de perdão” do líder negro. “Madiba não duvidava da luz. Ele pavimentou o caminho para um futuro melhor, mas ele não pode fazer isso sozinho”.
Senhoras de vestido azul claro e gorro roxo, da congregação da Imaculada Maria, sentadas ao lado do palco, puxavam cânticos religiosos e tradicionais africanos, ao som de tambores. O refrão “Nelson Mandela/Não há ninguém como ele”, na língua local soto, foi dos mais entoados.
Embora não fosse católico, Mandela tinha especial relação com a igreja Regina Mundi. Uma de suas mais famosas imagens, fazendo uma dancinha com os braços dobrados na altura do quadril, foi tomada no altar da igreja.
O prédio é rico em simbolismo. Vitrais mesclam as tradicionais imagens cristãs com silhuetas de pessoas negras. Um quadro com Maria e Jesus negros adorna a parede, e a Bíblia exposta está escrita em zulu, outra língua local.
Ao lado do altar, um livro de condolências foi aberto, junto a uma vela e à foto de Mandela. “Ele sofreu, ele sentiu a dor. Perdemos um pai, um avô e um filho da África”, dizia uma mensagem.
Membros da família do ex-presidente estiveram em uma celebração na Igreja Metodista de Bryanston, na região metropolitana de Joanesburgo. O presidente Zuma esteve na celebração e agradeceu Mandela por seu compromisso com a paz e a reconciliação do povo sul-africano. “Ele defendeu a liberdade, lutou contra quem oprimia os outros. Ele quis que todos fossem livres”.
Na próxima terça, será celebrada a missa em lembrança ao ex-presidente, no estádio Soccer City, no Soweto. Deverão ir ao evento dezenas de autoridades, como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o príncipe Charles e o primeiro-ministro britânico, David Cameron. De quarta a sexta, o corpo de Mandela ficará exposto nos Union Buildings, sede do governo sul-africano.
Antes de cada dia de velório, os restos mortais passarão em um cortejo fúnebre pelas ruas de Pretória, no caminho entre o hospital onde o corpo será mantido e os prédios da Presidência. O corpo de Mandela será colocado em um caixão de vidro. Para o funeral, no próximo domingo, está prevista a presença de autoridades, líderes políticos e celebridades de todo o mundo.
A presidente Dilma Rousseff confirmou presença e deverão acompanhá-la os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Fernando Collor de Mello.
Entre as celebridades esperadas estão a apresentadora americana Oprah Winfrey, o ex-capitão da seleção de rúgbi sul-africana François Piennar, campeão do mundo em 1995, e o vocalista da banda U2, Bono Vox.
A expectativa é que o funeral de Mandela reúna milhões de pessoas e tenha número de personalidades similar ao sepultamento do papa João Paulo 2º, em 2005. A companhia estatal South African Airways colocou voos extras para trasladar parte dos visitantes ilustres.
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